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fevereiro 10, 2004

DR/Capítulo 14 - Mangu 

A vida de quem trabalha em agências de viagens é porreira. “Não sei quê, tive agora uma semaninha em Loret a aturar os putos do secundário na viagem de finalistas, e tal e coiso. Pá e agora tive de vir para aqui pá, e tal, ver como é que tá a correr a dos putos da universidade. Epá não apetecia nada agora uma semana em punta cana, pá, ter de tar aqui pá. Fogo pá!”

It’s a dirty job but someone has got to do it. E muito empenhados no seu trabalho lá estiveram os gaijos da agência de viagens. Se tivermos em conta que quando chegámos éramos o único grupo de lisboa, e éramos só 10 e que só mais tarde chegou outro grupo de odivelas, percebemos logo a importância dos três gaijos da agência ali. E era de facto muito importante eles estarem ali. Era importante para eles. É a altura em que os seus egos enchem desmesuradamente. Porque ali são sempre estrangeiros, são sempre cobiçados, são os supostos machos latinos com papel, isto independentemente de serem baixos, gordos, carecas e broncos.

Os nossos gaijos da agência não eram exactamente assim, mas também não andavam muito longe. E até foi bom eles estarem lá. Se não fosse o nosso queridíssimo Fernando (que nos ia provocando um ataque cardíaco, primeiro quando demorou a nos receber na FIL e ainda nos passou um grupo de leiria à frente, depois quando nos liga a dizer que a viagem tinha sido cancelada – tudo coisas que não se fazem) não teríamos tido coragem para ir até à discoteca do hotel vizinho. Os gaijos do Porto já tinham sido assaltados e nós não távamos para arriscar. Então lá fomos com o xôr Fernando. Ora o xôr Fernando é, quanto a mim, aquele tipo de pessoa que, pela maneira como fala, não dá para acreditar em nenhuma palavra que diz. Tinha aquele ar gingão, de quem acha que sabe o que diz e o que faz e que é muita bom. Naquele caso era, de facto, o único ali que sabia para onde estava a ir e com o que é que tinha de ter cuidado, ali em plena república dominicana, de noite e sem a protecção dos muros do hotel. Mas também não era preciso que cada vez que passava ou passávamos por alguém que oferecia marijuana ele gritasse, com todo o ar de “deixem que eu sei o que tou a fazer”, Obrigado, já temos!!!

Obrigado, já temos?! Mas o que é isto? Quê, agora que eles pensam que nós temos marijuana já não nos vão chatear mais e ainda vão pensar que somos uns gandas malucos, muita porreiros? Uau!! Este gaijo percebe disto, não sei se já vos tinha dito.

Se sair dos portões do hotel já era como entrar num mundo à parte. Sair dos portões do hotel para entrar na Mangu era o cúmulo do surreal. A Mangu meus amigos?! A Mangu é aquele tipo de discoteca onde tu até podes querer ir uma vez ou outra, mas onde não queres que ninguém te veja. Nós entrámos e demos de caras com um ambiente pesado, ou melhor suado. Uma decoração com uns neons estranhos, muito vapor no meio da pista, muito dominicano agarrado a bifas estrangeiras e muita dominicana atracada a bifos estrangeiros, além de muita dominicana atracada a muito dominicano. Entrámos um a um e a partir daí andámos sempre em bloco, para não nos perdermos e para ninguém se meter connosco. Mesmo assim não foi possível evitar que alguns olhares recaíssem sobre nós e pior ainda que um bacano me perguntasse se eu era do Chile. Aonde é que eu tenho cara de chilena, alguém me diz? Não muito à vontade, continuámos a dançar mais um bocadinho, o bocadinho que nos foi possível, embora a música fosse consideravelmente melhor. Mas sempre com a mesma ideia em mente: quando é que nos vamos embora mesmo?

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