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fevereiro 06, 2004

DR/Capítulo 11 - Isla Saona 

O melhor marketing que se pode utilizar para vender algo é dizer que é obrigatório e que toda a gente faz, isto porque ninguém ia comprar nada só pelo facto de ser uma viagem divertida e de aquilo ser mesmo muito bonito. Mas claro, o obrigatório não é bem obrigatório e logo nem toda a gente o faz. No entanto, no caso da visita à isla saona, bem que deveria ser obrigatória e, já agora estar incluída no preço da viagem. Depois de uma noite intensa um dia em cheio.

Esse dia começou muito cedo. Tínhamos que estar na entrada do hotel às sete da manhã, o que já de si exigia um grande esforço. À boa maneira de quem fica hospedado num hotel no dia anterior pedimos que nos acordassem às tantas horas. Às tantas horas do dia D o telefone do quarto da meninas tocou… do outro lado, num tom irritantemente alegre para aquela hora da manhã, ouvia-se “Buenos Dias! Buenos Dias! Buenos Dias…” Ora aquilo só podia mesmo ser uma gravação, ninguém em seu perfeito juízo teria a capacidade de cantar aquilo, aquela hora e com aquela alegria toda. Depois daquilo, ainda completamente bêbados de sono, lá fomos tomar, não o nosso pequeno almoço porque aquilo que comemos não se comparava aos pequenos almoços que tomámos antes, mas o nosso lanchinho matinal, preparado especialmente para os turistas que iam fazer as chamadas excursõezinhas.

Entrámos no autocarro, desta vez um autocarro a sério, mas que já não era só para nós. ohhhh. Em cerca de 60 lugares, nós os dez éramos os únicos portugueses e os restantes eram todos espanhóis. uhhh Desta vez estávamos em minoria. Nós fomos os primeiros a entrar, ocupámos logo os lugares de trás. Para lá o caminho fez-se mais ou menos bem, basicamente fomos o caminho todo a dormir. Aquela era uma excursão, tão a sério que até tínhamos guia no autocarro. Mas é claro, com a moca de sono com que estávamos todos, portugueses e espanhóis, poucos foram os que conseguiram perceber uma palavra do que ele dizia. Além do aspecto das terreolas pelas quais passámos, casinhas à beira da estrada, do tipo casinha sim, casinha não, barraca sim, barraca sim, barraca não, ainda vimos o caos do trânsito numa das cidades pelas quais passámos e ainda o aspecto de parte do comercio local, especialmente o pormenor das carnes penduradas à beira da estrada (muito provavelmente era daquilo que andávamos a comer).

Fomos ter a Bayahibe, uma pequena localidade piscatória com uma espécie de porto, onde nos esperavam as lanchas rápidas que nos iam levar ao big boat, que nos ia levar à ilha, que nos ia levar… ok esquece. Muita nices as lanchas, de 25 lugares, com dois motores de 250 cavalos cada uma. Digamos que aquilo andava bem. E dava com cada pulo, né susana?? O boat era um big boat e a viagem que íamos fazer era uma big viagem – uma hora e meia, mais coisa menos coisa. Tinha uns três pisos, por assim dizer. No primeiro deck (só palavras caras neste diário, nhanhasse!!) havia uma espécie de sala de estar, que passado um certo tempo se transformou na sala do mal estar (bem! e os trocadilhos?! são do melhor…ou então não!). Já explico!

No deck superior existia um espaço aberto, mas coberto, preparado para o pessoal dançar e que tinha um barzito e um dj sempre a pôr musiquinhas animadas e mexidas. Felizmente também tinha uns banquitos onde podíamos abancar e apreciar as figurinhas que os outros faziam enquanto dançavam, ou simplesmente enjoar calmamente sentados. Porque foi isso que aconteceu a alguns de nós. A mistura de mar mais ou menos agitado, viagem demorada e dança de caribean hits, não combinou com alguns estômagos. Daí a utilidade da salinha do piso inferior. Houve mesmo quem chegasse a virar o barco. Subindo umas escadinhas ias dar a um pequeno terraço no qual ficava também a casa do leme. Era o sítio melhorzinho do barco. Para ir até à ilha fizemos novamente o transbordo (xiii! sou mesmo uma pessoa cultivada) para as lanchas rápidas.



A isla saona é uma ilha deserta onde existe uma reserva e da qual só se tem acesso a um bocadinho de praia e da qual supostamente não podes trazer nada. Entre outros aspectos, tem como particularidade o facto de se situar em pleno mar das caraíbas. Donde!! Estávamos num sítio onde a água era super transparente e a puxar pó quentinha, o que sabia muito bem. Almoçámos na ilha, pousámos para um montão de fotos (sempre cara à caras), junto à água, com o coco que o paulo comprou a um dólar, comemos o coco do paulo e passámos um montão de tempo a tentar explicar ao fotógrafo argentino que em portugal come-se outras coisas, muito melhores até, do que batatas com bacalau, nomeadamente pataniscas. O cómico que é ver um argentino a tentar dizer a simples palavra patanisca.

Back to the lanchas rápidas. Fizemos o percurso de à bocado, de uma hora e meia, em 25 minutos. Aquilo era rápido rápido!! E como nem te dava tempo de pensar que tavas a andar muita rápido e aos saltos sobre a água, também não dava tempo para enjoares. Num instante chegámos às famosas piscinas naturais. A largos metros da costa, com uma paisagem incrível à nossa volta, estávamos em pleno mar das caraíbas, com água transparente e quentinha, pela cintura e pelo peito. Uma óptima oportunidade para dar uns mergulhitos, para beber mais uns copos e claro para tirar mais umas fotos. Numa das fotos, tirada pelo fotógrafo argentino (um tal que andava à procura de uma estrela do mar e que a achou com a susanita) e que compõe a capa do CD do ano, podemos ver 10 malukitos com um ar muito divertido. Na verdade a expressão estampada nos nossos rostos não era só resultado da euforia de estar ali e daquilo tudo ser um máximo. Estávamos mesmo a escangalharmo-nos a rir com as figurinhas do fotógrafo. Ele procurava sempre aprender alguma expressão nova connosco, e depois das pataniscas, estava a tentar dizer o equivalente em português da expressão “Say Cheese!!”. Resultado: “Olha o pexarinho!! Olha o pexarinho!!” Outras fotos de restrito acesso, incluem os três gaijos da turma, dentro de água, aos saltos e com os calções de banho na mão.

Dali ainda fomos até um local com corais fazer mergulho ou lá como é que aquilo se chama. Fomos todos completamente equipados. Na verdade estávamos todos com alto ar de sapo. Óculos, respirador, barbatanas e num ou outro caso colete salva vidas. Ok só num caso com colete salva vidas. Não terá sido bem mergulho, pelo menos para alguns. Tentem mergulhar com um colete vestido a ver se chegam a mergulhar alguma coisa. Bem, pelo menos tinha a vantagem de não ter de estar sempre a dar às barbatanas.

Depois voltámos para o autocarro e para o hotel. Mas desta vez já não estávamos cheios de sono, como de manhã, pelo contrário, depois de um dia daqueles, estávamos com a pica toda. E por isso fomos todo o caminho de regresso a cantar. Ora, nós não cantamos muito bem, nem cantamos muito baixo e, pior ainda, a nossa selecção musical não é das melhores. Logo, os coitados dos espanhóis sofreram um bocadinho nas nossas mãos. Ele era Tony Carreira, ele era Silence4, Romana, Ruth Marlene, Ágata, Carlos Paião, “Atirei o pau ao gato”… Tudo servia para cantar, mesmo sem saber as letras. Eu acho que esse pequeno pormenor era um dos que irritava ainda mais. Havia alguém que se lembrava da música (e era sempre só uma parte da música) e depois cantávamos todos só essa parte da música, talvez mais um bocado, mas nunca passava disso. Cantávamos o refrão duas ou três vezes depois esquecíamos do resto e passávamos logo para outra música. Aquilo durou a viagem toda. A partir de uma certa altura já se notava uma certa tensão entre os espanhóis. Eu acho que eles já não sabiam onde se haviam de meter só para não terem de nos ouvir. A única pausa concreta que ocorreu foi quando fizemos uma pequena paragem numa pequena localidade para fazer umas comprinhas e um xixizinho. Foi só nessa altura que se deixou de ouvir portugueses a cantar dentro do bus. Mas só mesmo porque não havia nenhum português no bus.

De volta ao autocarro, fomos mais uma vez os primeiros a entrar no bus e ocupámos os mesmos lugares de toda a viagem – os últimos do bus. Depois foi ver os espanhóis a entrar e a ocupar os lugares o mais à frente possível. Os últimos a entrar tiveram como castigo sentar-se junto aos portugueses barraqueiros e aguentar mais de perto o concerto de música popular portuguesa. Às tantas, cada vez que parávamos por um bocadinho, porque tínhamos de poupar as gargantas, porque o nosso repertório não era muito vasto e tinha grandes falhas e porque começávamos a ficar fartos de nós mesmos. Não é que os espanhóis agarravam-se ao microgaitas (fictício) e começavam eles a cantar, os abusadores. Houve ali uma altura em que parecia que havia uma certa competiçãozinha, mas tudo muito saudável. Houve até um momento muito do bonito em que nós e os nuetros hermanos cantámos em conjunto Viba España!! (aquela musiquinha típica de circo. Se repararem sempre que se assiste a um espectáculo de circo a música que tocam é sempre esta) Custou-nos um bocadinho ter que estar a cantar e viva a espanha. Toda a gente sabe que não é bem assim. Ainda pra mais fomos nós que demos o mote. Mas tinha de ser, depois de lhes infernizar a viagem tínhamos que mostrar que afinal éramos amiguinhos e que se quiserem podem continuar a pescar nas nossas costas, a exportar para cá a fruta deles e tudo mais. Afinal de contas eles estavam em maioria.

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